Diário de Bordo

Uma estrada em comum

Por on 9 de junho de 2017

Era para ser o último dia de Salar. Deixei a Isla Incauhassi pela manhã em direção a Colchani, uma viagem de 80km de deserto para todos os lados. Enquanto pedalava por aquela imensidão branca, bem distante era possível ver pontinhos negros se movendo. Nunca dava para saber se eram jipes, ônibus, motos ou, menos provável, bicicletas. Algumas excursões VIPS paravam seus 4×4 em lugares bem remotos para almoços exclusivos debaixo de um guarda-sol e também para os turistas tirarem as tradicionais e curiosas fotos no deserto. Assim encontrei um casal de Brasília e uma família de Suíços. Reabasteci água com eles e segui viagem. Cansei das músicas e comecei a ouvir podcasts. Cansei também. Ainda não via Colchani no horizonte, mas aproveitava a brisa que soprava a meu favor para acelerar a pedalada.

Bem longe e fora da minha rota, vejo dois pontinhos negros se movendo lentamente. Minutos depois, ainda distante, resolvi apostar que eram ciclistas e decidi sair da minha estrada e pedalar naquela direção para ver o que era. Logo percebi que aqueles objetos terrestres ainda não identificados vinham ao meu encontro e a expectativa de que fossem ciclistas aumentou. Aos poucos o sorriso foi se abrindo ao ver que sim, eram duas pessoas em cima de suas bicicletas. Melhor que encontrar compatriotas no meio do deserto é encontrar gente como a gente, que fala a mesma língua. Logo que nos apresentamos eles disseram:

“Eu sei quem é você”.

Meus olhos se arregalaram antes de eles dizerem que encontraram um casal da Holanda que me conheceu em Calama, no Chile e lhes contou que eu estaria em seu caminho.

Kenneth e Marie são dinamarqueses, naturalmente não falam português, mas falam o “bicicletês”, que nessas horas é melhor que o inglês, espanhol ou qualquer outro idioma. Ainda em cima das bikes começamos a bater papo. Eles começaram a viagem em Ushuaia e estão indo para o Alasca, uma rota tradicional entre os cicloviajantes europeus. Apesar de seguirmos a mesma direção, rumo ao norte do continente, naquele dia eles faziam uma viagem diferente e estavam indo visitar a Isla Incauhassi, de onde eu começara a pedalar naquela manhã. A conversa estava boa e não queríamos encerra-la. Foi aí que perguntei:

“Vocês querem muito chegar a Ilha hoje?”

Eles deram risada e quase que juntos falamos:

“Vamos acampar aqui hoje?”

Que alegria! Nós três estávamos cansados e a ideia foi uma instantânea unanimidade.

Na noite anterior eu acampei no Salar, mas como era a primeira vez e eu não sabia como seria o comportamento do vento, fui um pouco conservador armando a barraca atrás da ilha, onde eu estava bem protegido. Neste dia era diferente, o acampamento foi literalmente no meio do deserto e em excelente companhia. Deixamos as bicicletas deitadas no chão, em volta armamos as barracas e no centro fervemos água para um cafezinho de fim de tarde. E que fim de tarde! Haviam nuvens e, enquanto o sol baixava, o azul do céu explodiu em laranja, vermelho, cor de rosa e suas derivações. Foi um espetáculo! Um inesquecível pôr do sol! Tiramos muitas fotos e nos divertimos com elas.

Contamos uns aos outros algumas de nossas experiências e claro que falei dos meus amigos argentinos Alvaro, Olivia e Perica. Disse que os conheci na véspera do meu aniversário e passei uma noite super especial com eles. Foi aí que a Marie disse:

“Amanhã eu faço 35 anos”

Caí pra trás! Que incrível! Eu poderia dar a eles o carinho que eu recebi dos meus hermanos! Juntamos as nossas comidas e tivemos um verdadeiro banquete no deserto! Macarrão com brócolis, cebola, alho, tomate e purê de batata instantâneo.

Desculpem-me, mas isso é um banquete.

Faltou vinho para esquentar um pouco a noite que já registrava temperatura negativa. A luz da lua, quase cheia, batia naquela superfície branca de sal e iluminava o deserto.

O abraço de feliz aniversário ficou para a manhã seguinte porque estávamos congelando para esperar até meia noite. Tive uma aquecida noite de sono dentro do saco de dormir e amanheci com os primeiros raios de sol atravessando a barraca.

Todos os acontecimentos desta viagem se dão num tempo próprio, numa intensidade que só quem está ali pode entender. Amizades acabam nascendo de encontros como este e você acaba se sentindo em casa com pessoas como Marie, Kenneth, Alvaro, Olivia, Ana, Juli…

Juntamos os mantimentos outra vez para um café da manhã com mingau de aveia, banana, mel, bolacha, mexerica e café com leite.

Nos despedimos ali, mas devemos nos encontrar novamente para viajarmos uns dias juntos, já que temos uma estrada em comum. Temos uma história em comum.

TAGS
POSTS RELACIONADOS

ADORAMOS COMENTÁRIOS, DEIXE O SEU!

Isra 🇧🇷
Santos - SP

Jornalista, Israel Coifman é paulista de Santos e tem 34 anos. A paixão pelo esporte levou-o à profissão e o trabalho lhe apresentou o mundo. Passou por empresas como MTV, ESPN e Mowa Sports e por seis anos rodou o planeta cobrindo a seleção brasileira de futebol. Começou como freelancer e foi editor, repórter, produtor, videomaker, diretor de fotografia e deixou a função de head de video da agência Mowa Sports para ir atrás de um sonho genuinamente seu: viajar o mundo de bicicleta.

Like us on Facebook
Publicidade