Diário de Bordo

Um adeus na estrada

Por on 5 de dezembro de 2018

Após dias paralisado, respirando uma indecisão perturbadora, pedalei quase mil e quinhentos quilômetros em 17 dias de São Petersburgo, na Rússia, até Liubeshiv, na Ucrânia. As primeiras horas na estrada me trouxeram alívio, um novo plano e um antigo mantra: foco e disciplina. Foi através do ajuste milimétrico do foco em meus objetivos que consegui transformar uma vida bagunçada em disciplinada e fazer do impossível sonho o meu dia a dia. Bebi nessa fonte e arranquei com a viagem há quase dois anos. Algumas permissões, distrações e experimentações depois, em mais de 14 mil quilômetros, senti agora a vida e a viagem voltando para os trilhos que aquela criança livre sonhava na ocupada rotina de adulto no Rio de Janeiro. 

Há muitos caminhos, estradas e possibilidades, mas a linha é tênue entre sentir-se livre e perdido, portanto há momentos que há que puxar essas rédeas, escolher uma direção, fechar os olhos e só olhar pra frente. Frequentemente as coisas fogem do planejado e isso não significa que elas deram errado, ou mesmo se é bom ou ruim. Novos capítulos se encarregam de alinhar novamente o horizonte. Perspectiva. O seu tempo é sempre a hora certa.

O meu novo plano tem várias etapas. A primeira é fugir do inverno o mais rápido  possível. Ver novembro chegar na Rússia não é animador. Pegar um voo que me devolvesse para próximo dos trópicos não estava em questão assim como qualquer despesa que extrapolasse o meu limite diário e mensal que estipulei antes da viagem começar. Sem concessões, não me restava outra coisa que não fosse pedalar. Atravessei Estônia, Letônia e Lituânia em um piscar de olhos. Fui beneficiado por uma das maiores doenças do planeta: o aquecimento global. Muita gente está sem água fora das grandes cidades dos países bálticos, o que não impediu essa gente gentil e simpática de me dar abrigo pelo caminho. E com ausência das chuvas e atraso das baixas temperaturas, consegui avançar mais veloz que eu poderia imaginar. A travessia rápida de fronteiras gera um ânimo extra. Dentro da comunidade europeia não é preciso fazer trâmites imigratórios entre os países, o que deixa a viagem ainda mais fluida.

Não é que eu goste de burocracias, mas não dá pra negar que atravessar as tradicionais fronteiras com aduana, controle de passaporte e carimbo, claro, tem mais graça. A começar que é muito divertido ver a cara de espanto dos motoristas impacientes dentro de seus carros, naquela fila que parece trânsito perto dos pedágios em feriado prolongado no Brasil. Alguns sorriem, acenam, batem palmas e te filmam. Outros não escondem a irritação em ver a bicicleta passando na frente. Depois vem a hora de explicar para o oficial de imigração que você está de bicicleta quando eles pedem o documento do carro. É fascinante! 

Uma vez fui inspecionado por um guarda que estava mais interessado em saber a marca dos meus produtos e onde eu dormia, o que comia, do que fazer seu próprio trabalho. 

Da Lituânia para a Bielorússia tive momentos dramáticos. Foram as fronteiras mais demoradas e congelantes. -2 graus, suado, tomando canseira dos protocolos. Caí na malha fina! Inspecionaram meu passaporte até com lupa! Na Bielorússia não sabiam o que fazer com o documento brasileiro e demoraram um tempo até descobrir que eu não precisava de visto. Um susto aqui outro ali, faz parte. Cada fronteira tem sua história. Me lembro de todas como quem não esquece o caminho de casa.

“Que diabos estou fazendo na Bielorússia?”

Foi o que me perguntei depois de ficar plantado e passando frio ali na fronteira. Incrível como as primeiras impressões nos afetam, para o bem ou para o mal. 

Entrei no país me sentindo inseguro com toda aquela desorganização –  e com o pé atrás. Há momentos que, para os outros, é tudo tão estranho o que estou fazendo que parece até que estou fazendo algo errado.

Mas os cinco dias que passei na Bielorússia foram surpreendentes derrubando o cartão de visitas dos oficiais. Um povo carismático, simpático e hospitaleiro. Mesmo sem falar inglês eles não mediam esforços para ajudar. 

Outro dia um senhor viu minha bicicleta do lado de fora de uma loja de conveniência e se emocionou, pois há muito tempo ele havia viajado com a sua. Fez que fez que arrumou uma casa de um amigo no meu caminho onde dormi quentinho e fui alimentado, além de poder tomar banho. Até virei notícia em um jornal local.

Na saída para a Ucrânia foi diferente. Os guardas me deram bolinhos, encheram minha garrafa térmica de café e começaram a me seguir no Instagram.

Adorei a Bielorússia, mas foi um país onde experimentei uma dor que ainda está por todo lado. 

Ontem pedalei com o coração apertado. Fazia -5 graus e começou a nevar fraquinho. Fragmentos de gelo iam acumulando na barba e o que pingava do nariz congelava na roupa. Precisava falar com a minha mãe mas não tinha internet em nenhum lugar, nem no hostel onde eu parei para dormir. Eram dez da noite quando acordei assustado com alguém batendo forte na porta do quarto. 

Era um soldado, que sem falar nada de inglês, me pedia o passaporte. Com ajuda do tradutor entendi que ele inspecionava o que de fato eu fazia no país. Outra vez aquela sensação feia de desconforto e intranquilidade por nada. Ele foi e voltou 4 vezes e na quarta pedi pra ele me ajudar com um sinal de internet. Precisava mesmo falar com a minha mãe.

Quando liguei, desabei. O Kadu, meu cachorro havia falecido. Quase 18 anos de vida, de companheirismo, de amor. Quem tem cachorro ou gato ou ama os animais, sabe que eles são da família e essa foi a primeira vez que eu perdi alguém tão próximo. Mesmo velhinho, mesmo doente, mesmo sendo o ciclo natural, doeu. Dói. E ainda choro quando algum cachorro vem atrás de mim na estrada. E quantos eu não peguei no colo ou fiz um carinho vendo através daqueles olhos abandonados o olhar do meu Kadu, sempre pronto pra uma casquinha de pão e com as orelhas de pé ao ouvir as palavras mágicas “vamos passear?”

São quase 18 anos de grandes lembranças, mas não tenho tempo pra elas. Mais uma vez, a estrada te ensina a só olhar pra frente e, especialmente agora, se eu não fizer isso, o inverno vai me pegar como uma onda explode contra os corais.

Todas essas circunstâncias me fazem lembrar que depois que saí da Noruega, deixei de ser cicloturista e voltei a ser cicloviajante e, depois da Rússia, passei a cicloexpedicionário. Estou devorando quilômetros influenciado pelo clima e pelo próximo grande objetivo: entrar na Ásia pela Turquia e pedalar rumo à Índia. 

Quero cruzar a fronteira da Bulgária com a Turquia ainda neste ano. Ainda tem a Ucrânia (que acabei de entrar),Moldávia e Romênia pela frente, evitando a maioria das capitais e grandes cidades, parando para descansar 1 dia a cada 5 de pedal e fazendo uma média de 80km diários. Se vou conseguir, não sei. Se chover forte ou nevar, tem que esperar. Se o joelho reclamar, tem que descansar. Se o coração apertar, vou chorar, mas não vou parar porque é isso que eu vim fazer aqui. Aprender mais sobre a dor e o amor através das curvas do mundo. Chorar faz bem, sorrir também.

Obrigado Kadu!

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5 de novembro de 2018

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Isra
Santos - SP

Jornalista, Israel Coifman é paulista de Santos e tem 35 anos. A paixão pelo esporte levou-o à profissão e o trabalho lhe apresentou o mundo. Passou por empresas como MTV, ESPN e Mowa Sports e por seis anos rodou o planeta cobrindo a seleção brasileira de futebol. Começou como freelancer e foi editor, repórter, produtor, videomaker, diretor de fotografia e deixou a função de head de video da agência Mowa Sports para ir atrás de um sonho genuinamente seu: viajar o mundo de bicicleta.

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