Diário de Bordo

Quando o coração se abre, as portas seguem o mesmo movimento

Por on 9 de junho de 2017

Nem tudo são flores. Tive um dia ranzinza na véspera  de eu conhecer esse senhor. Pneu furado, respingos de pixe pelo corpo e pela bicicleta provenientes da pressa de motoristas em uma estrada em manutenção. Vento contra, subidas, frio, garoa , mais um dia sem banho e por fim um cara mal humorado. Comi um macarrão sem graça, armei a barraca na frente de uma casa vazia e fui dormir para deixar esse dia pra trás. Dormi bem. Tomei um café da manhã reforçado e comecei o dia decidido a faze-lo diferente do anterior, independente dos eventos externos.Como há diferença quando estamos aqui e agora e não com a cabeça lá na frente. E como a experiência muda quando paramos de olhar para o relógio, para as metas e aproveitamos e aceitamos melhor as coisas. Talvez a noite bem dormida e o café incrementado tenham ajudado. Talvez decidir não reclamar também. A verdade é que cada um tem uma cartilha interna de boas práticas que, se seguidas, “chegamos lá” com mais leveza. O problema é que quase sempre achamos que já decoramos qual é a receita do bem estar, mas quando menos esperamos, nos perdemos de novo.

Me dou conta que estou aproveitando melhor o caminho quando paro mais vezes para fotografar. Às vezes largo a bicicleta apoiada em alguma placa e vou ver o que há atrás das pedras. Quando sento em alguma mureta para tomar um café e tiro o livro da mala para ler umas páginas é sinal que estou curtindo de verdade. Quando tudo isso acontece, “coincidentemente” você volta a receber mais buzinadas de motoristas te cumprimentando e até o macarrão sem graça do dia anterior fica mais gostoso. As cores voltam e as paisagens se revelam ainda mais lindas.

Não foi a primeira vez, mas este dia vi como a falta das nossas boas práticas internas determinam o nosso estado de espírito e como o nosso estado de espírito determina como serão as coisas. Certamente não por coincidências este dia foi especial e entrou para a galeria dos momentos inesquecíveis da viagem. Uma estrada de cinema, uma paisagem de sonho, fotos lindas e quando fui ver, uma performance daquelas boas!

Cheguei a quase 4000m de altura com chances de parar por ali. Mas eu queria mais! Aquele dia estava demais, havia lenha pra queimar ainda! A água estava acabando e a comida também. Num posto policial, ganhei frutas e recarreguei a água. E os quilômetros seguintes seguiram me surpreendendo em beleza e bom humor. Comecei a contornar o Salar de Ascotán de olho na próxima cidade onde enfim eu jogaria a âncora.

Vi uma explosão de cores no céu em um por do sol mágico e cheguei a um pueblo que se chama Cebollar. Ali funciona uma mina e consegui autorização para acampar em um lugar protegido do vento! Perfeito! Que dia!

Montei minha barraca e botei água para ferver. Minutos antes de eu abrir o pacote de macarrão, apareceu o Senhor Juan, cozinheiro dos mineiros. Ele me disse que falou com seu superior e que ele autorizou eu dormir em um dormitório. Juan me mostrou onde era o banheiro e pediu para eu me apressar pois o jantar seria servido em meia hora. Inacreditável! Um banho moralizador renovou a minha energia antes de eu me sentar à mesa com os operários.

Juan não me encheu de perguntas. Não quis saber porque eu estava naquela jornada, nem por onde eu passei antes. Ele só queria ajudar. Falamos de futebol, política e sobre o Chile. Ele é pai de três filhos de duas mulheres diferentes. Está trabalhando na mina há 10 anos e está esperando completar 11 para pedir demissão. Há uma lei que os mineiros podem receber todos os direitos a partir do 11º ano de casa. Seu plano é montar um restaurante em Arica.

Na manhã seguinte teve café da manhã e ganhei frutas para encarar o meu último dia de Chile.

Um dia de sucesso, completamente determinado pelas minhas intenções.

Quando o coração se abre, as portas seguem o mesmo movimento.

TAGS
POSTS RELACIONADOS
Uma estrada em comum

9 de junho de 2017

IMG_8875
Oxigênio na altitude

9 de junho de 2017

IMG_8802
O primeiro camping selvagem na Bolívia

9 de junho de 2017

IMG_8898
Hoje, melhor que ontem

9 de junho de 2017

Perica
Perica

26 de maio de 2017

Processed with VSCO with m5 preset
Caminhos do coração

24 de maio de 2017

C
A travessia de um sonho

8 de abril de 2017

Captura de Tela 2017-04-09 às 00.55.20
A Argentina em timelapses

8 de abril de 2017

Captura de Tela 2017-04-09 às 00.55.03
Um dia de Cordilheira

8 de abril de 2017

ADORAMOS COMENTÁRIOS, DEIXE O SEU!

Isra 🇧🇷
Santos - SP

Jornalista, Israel Coifman é paulista de Santos e tem 34 anos. A paixão pelo esporte levou-o à profissão e o trabalho lhe apresentou o mundo. Passou por empresas como MTV, ESPN e Mowa Sports e por seis anos rodou o planeta cobrindo a seleção brasileira de futebol. Começou como freelancer e foi editor, repórter, produtor, videomaker, diretor de fotografia e deixou a função de head de video da agência Mowa Sports para ir atrás de um sonho genuinamente seu: viajar o mundo de bicicleta.

Like us on Facebook
Publicidade