Perica
Por on 26 de maio de 2017

A Perica é essa cachorrinha linda da foto. Até o fim do ano ela terá muitos carimbos em seu passaporte. Junto com seus pais, Olivia e Alvaro, ela viaja numa simpática Kombi desde Buenos Aires rumo a Califórnia. Isso mesmo! Os três saíram da Argentina e vão para os EUA… numa Kombi! Os recém-casados levam pranchas e velas de Kitesurf para aproveitar a costa do Pacífico, enquanto isso Perica brinca na areia. Ela já espalhou o seu charme por várias províncias de seu país natal e também por boa parte do Chile.

O drama

Ela é meio difícil sabe? Não vai com qualquer um. Para eu conquistar sua confiança foi necessário viver um grande susto! Eu viajava há três dias com eles quando o drama começou. Nos conhecemos em Taltal, celebramos meu aniversário juntos, depois passamos uma noite com as estrelas no Cerro Paranal, fizemos um pitstop em Antofagasta e chegamos a Mejillones, uma cidade portuária, para passar a noite e seguir para o norte. Armei o acampamento, colocamos uma boa música e fizemos o jantar na cozinha da Kombi. Enquanto Alvaro contava como conheceu e se apaixonou pela Olívia, a Perica veio conferir o que tinha sobrado do jantar e se deliciou com o restinho do macarrão ao molho branco. Menos de meia hora depois, lavamos a louça e chamamos a Peri…mas ela não apareceu.

Eu fiquei tenso imediatamente. Alvaro e Olivia nem tanto, pois ela sempre volta. Mas desta vez não voltou. Eu saí de bicicleta chamando por seu nome. Nada! Depois saímos caminhando com lanternas. Nada! Alvaro e Olivia foram de Kombi e eu fiquei esperando, para caso ela voltasse! E nada mais uma vez! Tudo de feliz que vivíamos foi substituído por dor, sofrimento e apreensão. Estávamos num canto de praia, em um morro uns 20 metros acima da areia. Para baixo havia uma pequena faixa de areia, a frente o oceano e atrás um deserto. Por onde estaria Perica?

Sonho ameaçado

Sabe daquelas histórias fofas que vemos na internet de casais que saem viajando o mundo com um cachorro? Esses são Olivia, Alvaro e Perica. E pra completar, numa Kombi anos 80. Uma trip muito alto astral e feliz. Gente que sai espalhando buena onda e sorrisos por onde passam. Aquilo não podia estar acontecendo!

Olívia já estava em frangalhos. Álvaro tenso, mas muito sereno. Depois de dias muito especiais com eles, aquele drama já era meu também. Fomos deitar desolados, esperando que a Perica voltasse na madrugada. E lá pra umas duas da manhã, ao invés dela arranhar as patinhas na porta da Kombi, fomos surpreendidos por três carros suspeitos que começaram a perturbar com música muito alta bem ao lado de onde estávamos. Se já não bastasse, mal conseguimos pregar os olhos com aquela bagunça toda.

Amanheci e esperava ver a cachorrinha dentro da Kombi. Mas ela não voltou! Alvaro saiu pela praia para procurar. Olívia caminhou bastante até chegar a umas casas para perguntar. Perica não estava com os vários cachorros que andavam soltos por ali. Eu desmontei a barraca e fiquei de plantão para caso ela voltasse para lá. Ambos retornaram sem nenhuma pista!

Nada dava certo

O mais estranho é que apesar do lugar ser amplo e aberto, não havia muitos lugares onde ela poderia ir. Todos os cenários vieram à cabeça, até os mais trágicos, mas seguimos focados nas buscas. Alvaro e Olívia saíram gritando seu nome pela janela da Kombi. Eu fiquei uma, duas, três, quatro horas os esperando e nada. Fiquei ainda mais tenso. Uma viatura da polícia passou por ali, expliquei o ocorrido e perguntei se eles haviam visto uma Kombi azul com placa da Argentina. O policial disse que os viu sim: numa oficina mecânica. Pasmem, a Kombi quebrou durante as buscas.

Montei os alforjes na bicicleta e parti rumo ao centro, procurando-os nas oficinas da cidade. Demorei, mas achei. Já era mais de duas da tarde e nenhuma notícia da Perica.

Voltei de bicicleta para a praia e percorri uma trilha ao lado do mar onde nos disseram que os cachorros da região costumam ir. Um cachorrinho lindo me escoltou até uma praia deserta, mas nenhum sinal da Peri.

De volta a Kombi, voltamos a procurá-la. Os gritos da Olívia saíam com choro e cada vez com menos esperança. Deixamos nossos contatos espalhados pela cidade toda e, quando já havia escurecido, entramos em um camping/pousada para checar por lá também. Fomos extremamente mal recebidos por um rapaz que trabalhava lá, que sem nenhuma sensibilidade e educação nos expulsou. Disse que chamaria a polícia se não saíssemos. Que dia! Mas calma, ainda não acabou! Ao tentar sair da tal propriedade, a Kombi não pegava de novo! Incrível! O tipo mal educado não nos permitiu acampar, então tivemos que pagar caro num chalé. No fim foi a melhor coisa a se fazer. Comemos, tomamos banho e dormimos melhor.

O fio de esperança

Na manhã seguinte, abri o computador e fiz um cartaz de procura-se com a foto da Peri e os dados do casal. Enquanto Álvaro procurava alguém para rebocar a Kombi, Olívia seguia buscando a pé e eu fui pedalando de volta ao centro para imprimir os cartazes e distribuir pela cidade. Na gráfica, a dona ficou sensibilizada com o drama. Me conectei e tinha uma mensagem emocionada do Álvaro:

“Isra, estamos en el taller y Oli fue a buscar Peri que acaba de aparecer”

Eu e a dona da gráfica nos emocionamos. Eu já havia impresso e pago pelos 50 folhetos. Voltei voando para a oficina e lá estavam todos emocionados! Que alívio! Perica ficou desaparecida por dois dias e estava mancando, com fome e com medo. Uma das muitas pessoas que ficaram com o telefone do Álvaro fez o contato. Ela foi encontrada assustada, escondida numa casa abandonada.

A Kombi foi reparada mais uma vez. Foi como um sinal para que não saíssemos de Mejillones até a Perica aparecer. Todos choramos e sentimos um alívio absurdo.

Decidimos voltar a Antofagasta para dar uma geral na Kombi numa oficina melhor. Naquela altura do campeonato, por mais que eu quisesse voltar a pedalar, eu não conseguia mais sair de perto deles. A nossa aventura precisava ser reiniciada!

Back on track

Perica voltou aos poucos ao normal e passou a vir no meu colo enquanto seguíamos na estrada. Talvez tenha ouvido os meus gritos, talvez tenha sentido que eu a procurei como se ela fizesse parte da minha vida há tempos. A esperança nunca pode morrer, mesmo quando tudo estiver dando errado e parecer sem solução, há que acreditar até o fim! Foi isso que fizemos!

Acabei viajando por 11 dias com eles e fomos juntos até San Pedro de Atacama. Sinto que poderia ir até a California dentro da Kombi, mas a minha estrada é outra. Sinto que a nossa amizade irá além da estrada e que em breve voltaremos a dividir grandes momentos!

Para finalizar, depois de toda essas aventuras e emoções, decidi fazer uma justa homenagem. A minha bicicleta que me acompanha há mais de cinco meses nessa estrada ainda não havia sido batizada. Agora ela tem um nome:

Perica.

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Isra 🇧🇷
Santos - SP

Jornalista, Israel Coifman é paulista de Santos e tem 34 anos. A paixão pelo esporte levou-o à profissão e o trabalho lhe apresentou o mundo. Passou por empresas como MTV, ESPN e Mowa Sports e por seis anos rodou o planeta cobrindo a seleção brasileira de futebol. Começou como freelancer e foi editor, repórter, produtor, videomaker, diretor de fotografia e deixou a função de head de video da agência Mowa Sports para ir atrás de um sonho genuinamente seu: viajar o mundo de bicicleta.

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