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Diário de Bordo

Mar calmo nunca fez bom marinheiro

Por on 16 de agosto de 2017

Senta que lá vem perrengue!

Quase sempre dá tudo certo, mas há dias que nada funciona.

Eu sempre conto histórias lindas e alguns de vocês me chamam de inspirador. Obrigado! É uma responsabilidade que ainda estou aprendendo a lidar, mas fico muito feliz em tocar algumas vidas de uma forma positiva.

Não quero passar uma imagem que não existe. A viagem é essencialmente linda mesmo, mas há dias como o de ontem. Dias daqueles que dá tudo errado e só nos resta ter esperança.

Em Cusco fiquei doente. Mais de uma semana. Foi gripe, febre, diarreia…virose. Fiquei de cama vários dias e melhorei. Nunca havia ficado tanto tempo parado (2 semanas) e estava impaciente e ansioso para voltar a viajar. Ficar parado em cidade turística também significa gastar muito dinheiro. E ao me sentir um pouco melhor juntei a fome com a vontade de comer e me mandei. Erro daqueles de quem não escuta o corpo (de novo) e dá razão para algumas intuições.

Antes da minha saída, troquei os pneus pela primeira vez. Eles estavam bem gastos e desalinhados. Há tempos sentia falta de pneus de montanha, já que tenho pedalado por muitas trilhas e asfaltos acidentados. Outro erro. Troquei o melhor pneu do mercado, que ainda tinha alguma lenha pra queimar por um pneu mais gordo de uma marca que o vendedor me convenceu.

Saí de Cusco animado e decidido a viajar mais devagar que o normal para dar espaço para o meu corpo se readaptar.
Fiz 30km no primeiro dia. No segundo, 50 e no terceiro 47, sempre subindo as íngremes montanhas da região.

As minhas duas más escolhas começaram a repercutir: saúde e pneus.

No terceiro dia tive uma subida dura e linda de 25km, mas tive os pneus furados por três vezes na montanha e só cheguei com muita fé em Curahuasi. Assim que entrei na cidade, já a noite, os dois pneus arriaram outra vez.

Durante esses dias minha garganta e gânglios começaram a inflamar e inchar. E me encher o saco!

Decidi não acampar e ir a uma pousada. Eu tinha na carteira 100/s (+- R$100) e, como havia um banco na cidade, no dia seguinte decidi comprar duas câmaras novas e uma reserva e trocar as que estavam todas remendadas. Paguei a hospedagem e comprei comida para viajar. Ficou tarde e decidi ficar um dia a mais para poder sair cedo na manhã seguinte. Eu teria 40km de subida, antes de descer 30 até Abancay, uma cidade maior.

Fui ao banco sacar dinheiro e o banco não tinha caixa eletrônico. Apenas os clientes do Caja Cusco podiam sacar dinheiro em Curahuasi. Eu tinha apenas 5 soles na carteira e precisava pagar 20. Fui conversar com o Sr. Gilbert, dono da pousada, e ele pediu para eu ir até o mercadinho, único estabelecimento na cidade que aceita cartões, para comprar umas coisas que ele precisava! Ufa!

Dormi cedo e acordei cedo pra sair, enfim com tudo que eu precisava: pneus arrumados, comida, água e vontade! Mas faltou a saúde. Dois quilômetros depois eu não conseguia mais seguir. Parecia que tinha uma laranja presa no meu pescoço. Minha boca estava seca e me doía pra engolir saliva. Dei meia volta e fui a um hospital. Lotado e sem previsão de atendimento. Me indicaram um posto de saúde, que mesmo sendo público havia que pagar uma taxa. Expliquei a situação e fui atendido daquele jeito…porque não tinha dinheiro. Me deram uma receita de remédios, mas eu não podia comprar, porque as farmácias também não aceitavam cartão.

Eu não tinha condições para seguir, não tinha grana pra me medicar e nem para ficar por ali uma noite mais. As agências de turismo que vendiam passagens para vários destinos não aceitavam cartão. Tentei “sacar grana” no mercadinho passando o cartão, mas não permitiram.

Encontrei uns taxistas que poderiam me ajudar, mas eles tentaram se aproveitar da situação me cobrando 5 vezes a mais do valor normal.

“Ah tem a bicicleta, tem um custo extra e também é um passageiro só…”

Eles poderiam me levar até a cidade maior que eu queria chegar e sacar dinheiro ali, mas me irritei com a forma que me trataram e fui orgulhoso.

Tentei carona por horas ali na entrada da cidade e nada.

Acostumado a sempre ter uma mão amiga e encontrar gente generosa, pela primeira vez não rolou. Pior, me senti muito triste. Pelo fato de não ter dinheiro ali na hora, as pessoas virarem as costas e não se sensibilizarem ou fazerem um mínimo esforço pra ajudar.

Montei na bicicleta e fui pra estrada, longe daquela cidade, com um resto de esperança.

Tentei uma, duas e na terceira consegui! O José Carlos viajava de Cusco a Lima num 4×4 e me levou até Abancay.

Nessa altura já me doía muito a garganta até pra conversar. Entrei no primeiro hotel que encontrei, deixei a bicicleta e fui a um hospital onde fui melhor atendido. Tomei injeção e me deram antibiótico e anti-inflamatório.

Ali sentado, esperando para ser atendido, me deu uma mistura de emoções e sensações além da dor física. Por várias horas e pela primeira vez na viagem me senti sozinho e encurralado, sem saída. Mas não desesperei, nem perdi a esperança. Vi como estou me transformando em ainda mais resiliente e paciente. E de certa forma fiquei satisfeito por conseguir. Conseguir encontrar um caminho.

Eu fiquei mal acostumado. Mais de oito meses de viagem encontrando apenas portas abertas. Não posso julgar quem não girou a maçaneta neste dia. Ninguém tem nada a ver com os meus problemas, ainda mais quando eles foram gerados por erradas e ingênuas escolhas que fiz. Há zonas de conforto até quando achamos que estamos bem fora dela. Há que vigiar, sempre!

A saúde, os pneus, o dinheiro? Aprendizado.

Estou me recuperando. E daqui só saio quando realmente estiver curado e 100%.

Meu corpo reclamou e eu não dei ouvidos. Parece um grande drama, mas esse textão é mais sobre esperança, fé e resiliência.

Logo mais estarei de volta, tomara que com boas lições aprendidas.

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8 de setembro de 2017

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2 Comentários
  1. Responder

    Rob and Lucie

    18 de agosto de 2017

    Dear Israel,

    We have read your blog (thanks to Google Translate). What a bad luck do you have with your health, your bike and some people you meet. We wish you all the best and hope you have the courage to travel again if you are truly healthy!
    We are still in an Airbnb apartment in Cusco. We leave Sunday and cycle also to the North. Probably we will see each other again. That would be nice.

    Greetings from a rainy Cusco,
    Rob and Lucie

    • Responder

      Israel Coifman

      18 de agosto de 2017

      Hey, Rob and Lucie! What a great surprise to see you here, reading my texts!
      Yeah, I had hard days since I back to Cusco and definitely, I should go to the hospital there, and maybe moved to another hostel or a private room. I was anxious to go back to the road and I didn’t take enough care of myself. But it happens! It’s part of the show! I hope within less a week I’ll take a bus from here (Abancay) to Cusco and restart the adventure from there! I’m sure we will meet again! Let’s keep in touch! Safe trip!

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Isra 🇧🇷
Santos - SP

Jornalista, Israel Coifman é paulista de Santos e tem 34 anos. A paixão pelo esporte levou-o à profissão e o trabalho lhe apresentou o mundo. Passou por empresas como MTV, ESPN e Mowa Sports e por seis anos rodou o planeta cobrindo a seleção brasileira de futebol. Começou como freelancer e foi editor, repórter, produtor, videomaker, diretor de fotografia e deixou a função de head de video da agência Mowa Sports para ir atrás de um sonho genuinamente seu: viajar o mundo de bicicleta.

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