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Diário de Bordo

De Cusco a Machu Pichu em bicicleta

Por on 31 de julho de 2017

Após parar por vários dias em La Paz eu só queria saber de voltar para a minha doce e querida rotina de pedalar, me deslumbrar, cozinhar e acampar. Planejei uma viagem de duas semanas até Cusco e acabei chegando em dez dias. Enquanto pedalava pensava em Machu Pichu, mais precisamente na minha falta de vontade de ir a Machu Pichu.

Deixem-me explicar.

Quem viaja de bicicleta entra em cada cantinho escondido, descobre cada lugar incrível e vive tantas coisas inesperadas que, ir para um lugar e já saber o que te espera não soa muito atraente. Quem opta por viver na estrada quer escolher os seus próprios caminhos. Isso é algo que aprendemos e não que nos dizem que temos que fazer. Comecei a viagem em dezembro empolgado com muitos destinos e aos poucos fui entendendo melhor que os caminhos são mais encantadores.

Mas ir a Cusco e não ir a Machu Pichu? 

Foi um dia longo. Pedalei 90km desde Cusipata até a cidade que é a porta de entrada para um dos lugares mais turísticos do mundo. Cheguei cansado e faminto ao Estrellita, um hostel recomendado por outros cicloviajantes. Enquanto eu devorava o jantar nas mesas do pátio, ela passou. Sofia é equatoriana e viaja em bicicleta desde Quito em direção ao Rio de Janeiro. Por algum motivo ela estava sem as suas companheiras de viagem que fazem parte do projeto Warmifonias, que em Quechua significa vozes de mulheres. As equatorianas pedalam e registram histórias de personagens transformadoras pelo caminho.

Nos primeiros minutos de conversa descobrimos algo muito forte em comum: ambos não queriam ir para Machu Pichu, mas ainda sentíamos alguma culpa por isso. Na manhã seguinte, o bom papo no café foi interrompido quando vimos um mapa colado na cozinha. Encontramos instruções de como ir pra lá de bicicleta, passando pelo Vale Sagrado e conhecendo lugares escondidos e fora do roteiro tradicional. Os olhos brilharam e ali decidimos encarar a aventura.e

Eu estava entusiasmado pois a ida a Machu Pichu foi ressignificada. Definitivamente eu não estava com vontade de entrar em uma van e fazer um passeio envelopado. Estava feliz também por viajar acompanhado. Era a primeira vez em mais de sete meses que eu dividiria a estrada e a rotina com alguém.

Fizemos ajustes nas bicicletas, reconfiguramos a bagagem e deixamos um pouco de peso no hostel. Fomos ao mercado central para almoçar e comprar uns mantimentos para o primeiro dia de viagem.

É sempre bom cruzar com outros cicloviajantes. Trata-se de gente como a gente. No entanto, encontrar sulamericanos em bicicleta é raro e é ainda mais legal pois somos vizinhos e temos muita coisa em comum. Em um dia e meio parecia que conhecia Sofia há mais tempo. Nascia então uma sintonia antes de cairmos na estrada.

Pé na estrada


Partimos domingo pela manhã em direção a Pisac. Foi um pedal tranquilo descendo até o Vale Sagrado por 44km. Presenciamos a animada festa da Virgen Del Carmen na Plaza de Armas.

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Seguimos o rio Urubamba para encontrar um lugar para acampar. Saímos da estrada e, entre Calca e Lamay, encontramos um tipo de fazenda feudal em ruínas, escondida atrás de uma plantação de cevada. Apelidamos de Palácio e elegemos que ali seria nossa primeira casa. A entrada do palácio tem duas grandes palmeiras e uma privilegiada vista do Vale Sagrado.

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Duas paixões foram levadas na bagagem: a fotografia e o desenho. Eu com a câmera e Sofia com pincel e aquarela fez com que a viagem fosse num ritmo ainda mais contemplativo.

Viajamos por lugares onde muitas pessoas falam apenas Quechua, idioma inca. Desta forma, aos poucos, fomos mergulhando através de atalhos nas raízes locais. Fizemos uma viagem de difícil subida até as Salinas de Maras, um sítio arqueológico lapidado nos tempos incas com centenas de terraços de sal. Imperdível! Descemos por uma trilha estreita, íngreme e perigosa onde deveríamos ter bicicletas e equipamentos de downhill, mas sobrevivemos com as nossas bikes carregadas. Lá embaixo encontramos uma escola abandonada com um perfeito jardim para acampar. O sol se pôs atrás das montanhas e as estrelas decoraram o céu.

IMG_9178Saímos de Cusco com a ideia de chegar a Machu Pichu em quatro dias. Já estávamos no terceiro e decidimos então fazer render um pouco mais na estrada. Acordamos cedo com mais objetivos do que os dias anteriores, mas as coisas não começaram como planejadas. Tentamos cortar caminho por um campo de trigo e nos perdemos bastante. Depois de pedalar e empurrar a bicicleta encontramos a pista e seguimos para Ollantaytambo, um turístico vilarejo com lindas ruínas nas altas montanhas que o cercam.

Passamos o dia inteiro tentando construir um fogareiro com latas de cerveja (após toma-las, claro), já que o meu gás para cozinhar tinha acabado e não encontramos para comprar por ali. Saímos do centrinho atrás de um lugar para dormir, mas sem que perdêssemos aquelas lindas montanhas de pano de fundo.

Vimos uma simpática casa de campo com um belo jardim e fomos ver se o dono nos autorizava ficar por
ali. Não havia ninguém na casa, mas descobrimos com os vizinhos que Lucho já estava para chegar. Sentamos para apreciar o pôr do sol. Enquanto Sofia desenhava, eu fotografava. Um tempo depois apareceram Felipe e Soledad e de primeira deu para ver que eram uruguaios, pois carregavam uma garrafa térmica debaixo do braço. Eles se sentaram conosco e dividiram o mate (chimarrão) com a gente. Felipe então nos convidou para acampar no jardim de sua casa e por fim acabamos passando uma agradável noite juntos. Cozinhamos para eles e, antes de descansar, eu e Sofia colocamos nossos sacos de dormir no jardim para ver as estrelas sem morrer de frio.

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Sem pressa

Acordamos cedo dia seguinte, fizemos café da manhã, desarmamos acampamento e na hora de sair…que preguiça! Esperamos o sol esquentar um pouco. Sofia começou a desenhar e eu a escrever. Meditamos, nos alongamos e quando fomos ver não queríamos mais ir. O quintal de Felipe tinha uma vista fantástica e era um lugar “buena onda”. Era uma casa simples sem eletricidade e água encanada, mas ali ao lado tinha um riozinho. Aproveitamos para tomar banho (geladíssimo!) e até demos banho no Cusquinho, um cachorrinho que nos fez companhia por lá.

Passeamos um pouco em Ollantaytambo e nos preparamos para enfim deixar o Vale Sagrado rumo aos 40 km de serra que tínhamos pela frente.

Começava então uma nova fase desta viagem com uma inesquecível paisagem que se revelava a cada curva: um ziguezague cinematográfico! Ao olhar para baixo víamos o asfalto parecer uma pista de autorama. Ao olhar para cima era difícil de acreditar que pedalaríamos onde passavam aqueles carros tão “pequeninos”. A estrada parecia uma serpente contornando a floresta. Quando o cenário é assim, a gente até esquece as dificuldades da subida e aproveita ainda mais a viagem. Encontramos umas ruínas incas bem escondidas e passamos um tempo ali contemplando. Fizemos uma parada para comer em um restaurante na beira da estrada. De barriga cheia bateu aquele cansaço e, Eugênia, a simpática cozinheira, nos permitiu passar a noite acampados ali mesmo no salão. Que sorte! Já estávamos a quase 4000m de altura e faria muito frio a noite!

Na manhã seguinte Sofia fez esse belo desenho para dar de presente a Eugênia por sua hospitalidade:

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 Estrada de cinema

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Pedalamos uns 15km mais de subida e uma prova de ciclismo passou por nós na estrada. A equipe de
filmagem parou para tirar fotos conosco e acabamos ganhando umas frutas de presente. Chegamos aos 4300m de altitude, tomamos um café quentinho que preparei de manhã para espantar o frio e nos agasalhamos para um dos trechos mais bonitos de toda a minha viagem. Descemos cerca de 80km acompanhando a paisagem que se transformava em tropical. Me deu saudades do Brasil! Parecia que eu estava numa espécie de Via Anchieta (estrada que liga São Paulo ao litoral paulista), mas muito maior e mais alta. O clima mais úmido me gerou uma sensação familiar. Enquanto deixávamos as montanhas com picos nevados para trás, víamos a floresta amazônica peruana no horizonte e contornávamos as fechadas curvas. Paramos muitas vezes para fotografar e apreciar a vista.

A água de uma alta cachoeira escorria pelas paredes da montanha, atravessava o asfalto e seguia caindo curvas abaixo. Era gostoso cruzar esses riachos na pista e sentir a natureza respingar de baixo para cima.

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Chegamos a Huayopata no fim da tarde e a dona de uma vendinha nos apresentou ao Valério, porteiro da escola municipal. Valério nos recebeu com alegria e generosidade e nos alojou numa sala de aula. Sofi fez uma deliciosa sopa de verduras e descansamos ali ao lado da mesa da professora. Entramos em Santa Maria, onde terminava o asfalto e começava a trocha ou trilha até Hidroelectrica (esseCaptura de Tela 2017-07-31 às 15.26.02 é o nome do pueblo). Esse trecho de terra e pedras foi o mais difícil desde Cusco pois não temos bicicletas próprias para esse tipo de terreno, mas como tudo tem seu preço, a recompensa foi o que vimos pelo caminho. O trajeto mais selvagem nos aproximou da natureza com um banho de cachoeira num clima bem mais abafado. Dormimos numa paróquia em Santa Teresa e deixamos o trecho final para o dia seguinte, pois precisaríamos estar descansados para as 2h30 de caminhada até Machu Pichu Pueblo. Hidroelectrica era o fim da linha para as bicicletas. De ali em diante não é permitido nem possível pedalar. Deixamos as magrelas num depósito de um restaurante (+-R$5) e caminhamos com turistas de todas as partes do mundo seguindo a linha do trem até Machu Pichu Pueblo, onde compramos os ingressos para a famosa atração. Para mim custou 152/s (+- R$148) e para Sofi custou três vezes menos pois o Equador faz parte da comunidade andina.

Caminho x Destino

Dormimos em um camping bem abaixo de Machu Pichu e ao lado da entrada do parque. Despertamos as 4h da manhã e de dentro da barraca já dava pra ver as luzes das lanternas formando uma imensa fila para começar a subir a montanha.

Subimos a trilha quase que em fila indiana por cerca de duas horas e enfim chegamos!

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Não quero parecer soberbo muito menos diminuir o valor histórico, cultural, arqueológico e místico de Machu Pichu. Também não quero que pareça que só viajar de bicicleta é interessante e que quem opta pelos meios tradicionais está fazendo algo “menos legal”. Somos seres complexos e diferentes uns dos outros e cada um tem um jeito de ver, viver e viajar. Mas para mim, no univeso que estou vivendo,, Machu Pichu foi apenas a cereja do bolo porque o caminho para chegar até lá foi fasciannte e surpreendente. E além do mais já é sabido que a viagem se trata do caminho e não do destino né?

Ao chegar lá em cima, fiquei muito feliz por ter feito a viagem que fizemos. A aventura de 4 dias se transformou em 11. Viajei de uma forma que eu ainda não tinha viajado, num ritmo que eu ainda não tinha experimentado. Desbravamos ruínas esquecidas, conhecemos pessoas gentis, simples e com raízes na região e nas tradições incas. Preparamos refeições deliciosas, descemos, subimos, descemos e subimos de novo. Pegamos temperaturas negativas e dias acima dos 30 graus. Mais uma vez nos apequenamos ao lado da Pachamama (mãe natureza em Quechua) e sentimos na pele e intensamente a energia desta região. 

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Com os locais e lugares, aprendemos um pouco mais sobre como é importante estar em sintonia com a natureza e como é ela, sempre ela, quem rege essa orquestra que chamamos de vida.

FullSizeRenderSofia? Uma mulher com talento e sensibilidade muito particulares. Ela fez com que a minha viagem e esse tempo que pedalamos juntos se transformasse em algo ainda mais interessante. Me fez sorrir todos os dias e me mostrou perspectivas e caminhos que eu não enxergava. Foi um presente para mim e mais uma vez uma lição de que temos que viver no hoje e sermos gratos pela generosidade do universo, que com muita singularidade, faz com que encontros como esse possam acontecer! Juntos formamos uma grande parceria.

Sofia me ensinou um bocado de coisas, mas não conseguiu me convencer que tirar o recheio da Oreo faz com que o biscoito fique mais gostoso.

Por ironia do destino ela vai para o meu país e eu sigo para o dela. Nossas estradas são diferentes, mas o caminho é o mesmo: pedalar, conhecer, aprender, viver e sorrir. Tomara que o deslizar das curvas possam nos colocar em algum momento na mesma direção.

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2 Comentários
  1. Responder

    REGINALDo teofilo

    1 de agosto de 2017

    Suas esperiencias tem inspirado muitas pessoas e seus comentários nos faz viajar junto com vc muito bom obrigado vc já sabe de qual cidade vc vai partir para Europa?

  2. Responder

    Heil

    1 de agosto de 2017

    Israel: pedalar por locais menos conhecidos é o que torna tão prazeroso e interessante a forma de cicloviajar. Parabéns pela sensibilidade no relato.

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Isra 🇧🇷
Santos - SP

Jornalista, Israel Coifman é paulista de Santos e tem 34 anos. A paixão pelo esporte levou-o à profissão e o trabalho lhe apresentou o mundo. Passou por empresas como MTV, ESPN e Mowa Sports e por seis anos rodou o planeta cobrindo a seleção brasileira de futebol. Começou como freelancer e foi editor, repórter, produtor, videomaker, diretor de fotografia e deixou a função de head de video da agência Mowa Sports para ir atrás de um sonho genuinamente seu: viajar o mundo de bicicleta.

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