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Diário de Bordo

A travessia de um sonho

Por on 8 de abril de 2017

Aos pés das mais altas montanhas do hemisfério sul era possível sentir na pele a chegada do outono. No horizonte os cumes de neve se escondiam entre as nuvens e me recordavam o quão longe eu estava de casa. Na estrada e em cima da bicicleta quem avisa sobre a troca de estação é a sua pele. E um frio extra na barriga nascia ao ver o verão se despedindo dos Andes bem quando eu começava a subir a Cordilheira.

Duzentos e cinquenta quilômetros separam Mendoza do túnel internacional Los Libertadores, em Las Cuevas. O percurso que o General San Martín, herói da independência argentina, fez a cavalo 200 anos antes eu estava prestes a repetir numa bicicleta. Eu sabia que algo maior que os mais de 3500 quilômetros percorridos desde que deixei o Brasil estava por vir.

Começando a subir

Eu já estava há quase cem dias na estrada, mas o momento não era de confiança e sim de
respeito. Não conseguia tirar os olhos do topo nevado da montanha enquanto pedalava
num ritmo calmo, de modo que não me esforçasse exageradamente e conseguisse contemplar a paisagem. Os alforjes, como sempre, estavam carregados de frutas, café passado e comida pronta. Decidi que nas montanhas eu pararia a cada dez quilômetros para descansar, comer, tomar água e também fotografar. Quando a minha vista já havia se acostumado com aquela cor marrom/avermelhada veio uma descida com uma tonalidade diferente ao fundo: uma lagoa azul turquesa irradiava um brilho inesquecível naquela paisagem árida. Foram 46,5 km até Potrerillos com direito a almoço com uma linda vista e acampamento com trilha sonora da natureza.

 

Por que não?

Foi a noite mais fria desde que comecei a viajar, mas dormi muito tranquilo e aquecido. Despertei cedo, mas acabei saindo tarde. Tudo bem! Preparei o café da manhã sem pressa, curti aquela energia gostosa dos primeiros raios de sol do dia, enquanto apreciava a cor violeta que eles geravam nas montanhas. A calmaria era reflexo do início de uma relação de paixão pelas montanhas.

Comecei o expediente por volta das dez da manhã e como planejado, parei dez quilômetros depois. Entrei numa propriedade onde funciona um restaurante e alojamento para excursões de aventura. Havia um mirante com vista para as corredeiras do rio Mendoza e os simpáticos donos dividiram comigo uma boa conversa enquanto eu tomava meu café. Quando preparava para me despedir, Ezequiel e Camila, me convidaram para passar a noite lá. Na hora recusei. Eu havia pedalado apenas dez quilômetros e estava louco para voltar para o asfalto. Minutos depois pensei melhor e me perguntei, por que não?

Já não é de hoje que sei que o bom de viajar está no caminho e não no destino e esse era um daqueles encontros legais. Lugar bonito, gente bacana e uma cama. Sem falar no banho quente, que não teve no dia anterior. Aproveitei para lavar a roupa e desfrutar deste dia curto sem culpa alguma.

 

Nunca estamos sozinhos

Deixei tudo armado na noite anterior e saí por volta das sete horas de uma manhã bem gelada. Os cumes nevados se esconderam e, apesar de haver claridade, o sol ainda não encontrava o asfalto devido a altura das montanhas. Só depois das dez da manhã pude sentir a pele esquentar um pouco. Pedalava em um tremendo bom humor e meu pescoço parecia o de uma coruja, girando quase que em 360º para admirar a paisagem.

Pequenos e charmosos túneis permitiam atravessar aqueles paredões e, em um dos não raros momentos de gratidão e emoção, fui surpreendido. Enquanto eu gritava bem alto “obrigado” entre aquelas montanhas, a minha voz ecoava na estrada e corriam lágrimas de felicidade pelo meu rosto. De repente olho para o lado e vejo um motoqueiro brasileiro, que com um baita sorriso no rosto me olhou e na hora entendeu o que eu estava sentindo. Ele esticou o braço e nos cumprimentamos em movimento. Ele vibrou por eu estar ali em uma bicicleta. Foi uma emoção ainda maior poder dividir aquele momento com alguém, ainda mais com um compatriota. A cada pedalada eu sentia algo cada vez mais forte. Estabeleci uma conexão mais estreita com as montanhas e com a bicicleta, e não conseguia parar de agradecer por estar vivo e vivendo este sonho.

Cheguei cansado a Uspallata após 55,5km e logo tratei de arrumar um lugar para acampar pois as nuvens se aglomeravam. Com autorização da polícia, montei a barraca em um jardim ao lado da delegacia. Por ali passou Inês, uma senhorinha curiosa e de bom coração. Me disse que se eu precisasse de algo poderia tocar a campainha de sua casa. Não perdi essa oportunidade e lá tomei banho e aproveitei para lavar a louça do jantar.

 

A sombra do susto  

Dormi com a roupa do pedal e deixei o café da manhã preparado na noite anterior: ovos cozidos e sanduíches de queijo se juntaram as bananas com doce de leite. Assim que o sol saiu, a bicicleta já ganhava o asfalto e fui presenteado com os primeiros dez quilômetros em declive. Mas não demorou muito a subir e passei a sentir os primeiros efeitos da altitude com um pouco de dor de cabeça.

O destino do dia era Polvaredas, um vilarejo de aproximadamente cem habitantes. Eu já estava numa altitude de quase 2400 metros acima do nível do mar e não sentia tantas dificuldades com a subida como eu esperava. Depois me convenci que eu estava tão fascinado com a paisagem e com as sensações, que nem me dei conta que estava subindo tanto. A natureza me manteve entretido e encantado.

No costado da estrada parei para comer e descansar. Subi a uma pedra e o que vi nunca sairá de minha memória. Abaixo um precipício, ao fundo o rio Mendoza e no horizonte montanhas que encontravam o céu. O lugar era muito alto e o silêncio absoluto. Na base das montanhas, as altíssimas falésias pareciam grandes muralhas que protegiam aquele santuário natural.

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Cheguei a Polvaredas após 42 km e um senhor me disse que eu poderia acampar na estação de trem que estava abandonada. A pequena cidade, com quase ninguém nas ruas, somado ao vento gelado e a alguns olhares desconfiados, fez com que aquela estação parecesse meio mal assombrada. Ela estava vandalizada, cheia de pichações e algumas de suas muitas salas tinham entulho acumulado. Encontrei um lugar que me senti seguro e armei a barraca. Pouco depois apareceu o Emiliano, um rapaz de vinte anos que trabalha na estação de energia da cidade. Sua função é abastecer com combustível e fazer a manutenção de dois motores de caminhão, responsáveis por gerar e distribuir eletricidade para as poucas casas dali. Ele me convidou para usar sua cozinha e permitiu que eu tomasse um banho também. Conversamos bastante e então fui para a minha barraca descansar e me preparar para o último dia de subida. Chegando ao acampamento, uma escuridão sinistra. O barulho dos canos que vazavam água, as pichações e todo aquele cenário fez com que o clima de abandono se transformasse em uma cena de filme de terror. Todas as salas eram conectadas por corredores sem portas e o piso estava todo depredado, assim como as paredes e as janelas que não existiam mais. Saí com a lanterna para dar uma ronda e de repente um baita susto….com a minha própria sombra! Ridículo! Só que fiquei com medo! Dei muita risada, mas achei melhor dormir em outro lugar. Me julguem, mas olhei para a estação de energia, onde o Emiliano trabalharia durante a madrugada e voltei para lá. Perguntei se poderia armar a barraca ali, bem na frente de sua porta. Ele deu risada e por fim deixou eu dormir em uma sala de máquinas. Tinha até um colchão ali! Dormi aquecido e sem fantasmas.

 

Um oásis no deserto

Mais uma vez saía para pedalar bem cedo e este foi o dia mais frio de toda a viagem. Nem o café nem o sol esquentavam. Tinha que pedalar mesmo. Nos primeiros quilômetros refleti um pouco sobre como a maioria dos motoristas é imprudente naquelas perigosas curvas. A ruta 7 no trecho da Cordilheira é bem perigosa, praticamente sem acostamento e com precipícios bem altos. Constantemente via caminhoneiros olhando para o celular enquanto dirigiam e motoristas em geral fazendo irresponsáveis ultrapassagens nas curvas. Por sorte eles respeitavam bastante a bicicleta e sempre que me viam, diminuíam e ultrapassavam com segurança. Em Polvaredas conheci uma senhora que  chorava a morte de um parente num acidente naquela estrada. A vida é muito frágil e me senti uma migalha no meio daqueles paredões de pedra.

Não demorei muito a chegar a Puente del Inca, um lugar bonito, turístico e histórico. Já estava ansioso para ver o Aconcágua e voltei para a estrada. O céu começava a ficar encoberto e a visão da gigante montanha era apenas parcial. Coloquei na minha cabeça então que queria acampar por lá. Seria incrível passar uma noite com as estrelas e amanhecer com a vista do ponto mais alto do hemisfério sul (6961m) ao abrir a porta da barraca.

A polícia florestal não permitiu que eu dormisse por lá apesar de eu insistir. Comecei então a pedalar rumo ao plano inicial: Las Cuevas, última parada antes do Chile. O vento estava forte e muito gelado. Nas subidas eu estava indo a menos de 4 km/h. Considerei voltar a Puente del Inca e dormir ali no povoado, mas não queria ter que subir novamente no dia seguinte o que duramente já tinha pedalado. Ainda não tinha superado o fato de não poder passar mais tempo com o Aconcágua, não queria dar passos para trás e tampouco avançava muito por causa do vento.

Quando quase não conseguia mais ir em frente vi duas casas e um carro num vale abaixo da estrada. Era o único sinal de civilização entre o Aconcágua e

Las Cuevas. Desci imediatamente. Fui recepcionado por dois cachorros e logo depois Sebástian, o dono da propriedade apareceu. Expliquei rapidamente a minha saga e o perguntei se poderia acampar ali e a resposta foi sim! Ufa! Poderia armar a barraca atrás de uma das faces da casa para me proteger do vento. Eu já comemorava muito isso. Enquanto euIMG_1758 começava a tirar as coisas da bicicleta, Sebástian voltou. Ele disse que estava iniciando a operação de uma pousada ali, a Leñas de Tolosa, e que eu poderia passar a noite em uma das casas já que ele não receberia ninguém. Nem acreditei! Foi como achar água no deserto. A surpresa maior foi ao entrar: uma casa linda e inteira para mim, com cozinha, banho quente, AQUECEDOR e amplo espaço para guardar a bicicleta e organizar a bagunça. Tomei um banho moralizador e me atirei na cama gigante e confortável para uma merecida siesta. Mais tarde preparei a janta, fotografei as estrelas e tive a melhor noite de sono dos últimos tempos.

 

Extremos num dia só 

Faltavam apenas sete quilômetros para chegar a Las Cuevas e essa subida foi a mais dura de toda a travessia. Sem vento, mas com muito frio eu seguia em ritmo bem lento. Mais íngreme que as anteriores, sem planícies ou descidas, esse percurso me mostrou como foi importante parar onde parei na última noite. Quando a superfície do asfalto voltou a ser plana fui me dando conta que eu tinha conseguido. 3500 metros acima do mar!  3650km percorridos em 103 dias desde que parti de Blumenau-SC.

Não teve como segurar a emoção!

Para cruzar a fronteira é preciso atravessar o túnel Los Libertadores onde é proibido bicicletas. Davi, funcionário da concessionária que administra a estrada me transportou em camionete  e celebrou comigo o sucesso da minha jornada.

Dos 3500 metros de altura e frio de 5ºc, desci cerca de 2700 metros pelas fechadíssimas curvas dos Los Caracoles até chegar a Los Andes. A temperatura subiu a quase 30ºc, a cabeça voltou a doer e o corpo esquentou. Lá embaixo a respiração voltou ao normal, mas o coração seguia agitado. Antes passei pela imigração chilena e carimbei o passaporte. Mais de dois meses depois era hora de deixar a querida Argentina pra trás.

O tempo, a natureza, a estrada e a bicicleta ensinam muito sobre paciência. Atravessar a Cordilheira dos Andes pedalando exige sabedoria. As subidas são longas e duras, mas não tão íngremes. Mais uma vez, é a mente que controla o físico. Se a cabeça não estiver preparada não há como chegar ao topo. Sentir na pele as manifestações climáticas, encarar madrugadas abaixo de zero, ventos gelados, sol quente e estar sozinho e exposto te apequenam antes de fortalecer. É essencial estar aberto de corpo e alma para que a travessia não seja só mais um recorde pessoal focado em distância ou tempo. É preciso humildade e respeito para poder colher o aprendizado das montanhas.

Ter a força do meu corpo impulsionando uma bicicleta pesada para o alto das Cordilheiras dos Andes e me mandando para outro país certamente foi um marco para mim, mas não pelos números. Os dias mais intensos e emocionantes que vivi até hoje foram lá no alto. As lágrimas de alegria e gratidão, o suor seco, o vento gelado que queima, os braços amigos e as imponentes montanhas me colocaram numa sintonia que eu jamais havia experimentado. A paisagem é arrebatadora, mas as curvas que percorremos dentro de nós mesmos enquanto viajamos é o caminho mais lindo.

Agora é hora de pedalar rumo a outro sonho.

Pela costa do pacífico rumo ao deserto do Atacama, deixando que as curvas chilenas digam onde parar.

 

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6 Comentários
  1. Responder

    Ari Boehme

    10 de abril de 2017

    Israel,
    Emocionante relato, lindíssimas fotos, parabéns mais uma vez, é inspirador ler suas crônicas.
    Siga por uma boa viagem meu amigo!

    • Responder

      Israel Coifman

      26 de maio de 2017

      Grande Ari!! É sempre uma alegria receber mensagens suas! Abração

  2. Responder

    Maria Silvia Bergamo

    10 de abril de 2017

    “Se a cabeça não estiver preparada , não há como chegar ao topo”.
    Seu relato é uma oração, lendo , acabei de rezar! 🙏🌹

    • Responder

      Israel Coifman

      26 de maio de 2017

      Obrigado Maria Silvia! Amém! rs

  3. Responder

    Vera Lucia

    17 de maio de 2017

    Que maravilha! Estamos ensaiando, preparando pra uma viagem desta. Vivemos em Israel. Quando estiver por estes lados, me avise. Um grande abraço.

    • Responder

      Israel Coifman

      26 de maio de 2017

      Olá Vera! Certamente vou para Israel e devo ficar um tempo, já que a minha irmã mora por aí! Quando estiver por esses lados te aviso! E boa sorte na sua viagem! Aproveite o vento na cara 🙂

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