A expedição

Em busca de aventura, dirigi do Rio de Janeiro a Timbó/SC para pedalar o Circuito do Vale Europeu. Seria esta a minha primeira cicloviagem autossuficiente, carregando barraca e tudo necessário para sobreviver por uma semana de bicicleta. Antes, eu já havia pedalado longas distâncias, feito pequenas viagens e subido íngremes montanhas, mas nunca com a bicicleta pesada. E este era o grande desafio: ver se eu suportaria bem a experiência para poder sonhar mais alto.

Cerca de 27 anos antes, o objetivo era bem mais modesto: largar as rodinhas de apoio da bicicleta para ser livre pela primeira vez na vida. Eu devia ter cinco ou seis anos quando consegui girar os pedais sozinho por alguns metros. Depois não parei mais! Fui criança pedalando, jogando bola e soltando pipa. Adulto, enfrentei a vida como a maioria: pegando ônibus, metrô e encarando o trânsito. Trabalhando, estudando, dormindo poucas horas, tomando muito café e correndo atrás de algo que nunca soube o que era.

A bicicleta?  ah… eu não tinha mais tempo para ela! Vivia muito ocupado atrás de um futuro melhor. E na esmagadora rotina de uma grande cidade como São Paulo, querendo sempre chegar logo, ser melhor, ter mais oportunidades e ganhar mais, acabei perdendo a minha habilitação de motorista por excesso de multas… e pressa!

Bike velha, vida nova | 2011.

Diante das circunstâncias, ressuscitei uma bicicleta de ferro e passei a usá-la timidamente. Primeiro para ir até ao mercadinho e a lugares próximos de casa, depois substituindo o ônibus e então vi que poderia ir mais longe. Pedalava por todos os lados de uma São Paulo que ainda nem sonhava com ciclovias… e descobri uma cidade nova. Ver os lugares na perspectiva do selim é uma experiência completamente diferente, reparamos mais em todos os detalhes ao redor e sentimos tudo sob uma outra ótica. Tive que perder a habilitação de motorista por causa da pressa para ver que a cidade onde eu cresci era muito mais interessante do que eu sabia.

A primeira cicloviagem

Ubatuba - Paraty, 2012.

Ubatuba – Paraty | 2012.

Era março de 2012 quando um amigo me convidou a pedalar 80km de Ubatuba até Paraty. Achei muito para quem rodava no máximo metade daquela distância, e só não recusei porque gosto de desafios. Claro que foi uma experiência inesquecível! Uma sensação de superar limites e, principalmente, ver que eu podia cruzar fronteiras com as minhas próprias pernas. Se ver São Paulo de bicicleta já era interessante, estar na estrada em contato com a natureza foi muito mais intenso…e irreversível.

Fragmentos de um mundo | Um aperitivo pra sonhar

As pedaladas longas se tornaram constantes, um prato cheio para quem acabava de chegar ao Rio de Janeiro. Por causa da profissão, fui morar na capital carioca e passei a usar a bicicleta para trabalhar e explorar os principais cartões postais da cidade. Aquela bicicleta de ferro já havia sido substituída por uma de alumínio, e no Rio fiz um upgrade para uma mountain bike mais forte, a minha primeira com freio a disco.

Amistoso da Seleção em Londres

Estádio Wembley, Londres | 2012

Nesta época eu viajava o mundo a trabalho. Foram mais de 20 países visitados, mas pouco desbravados. E na hora de voltar para casa dava sempre aquela sensação de querer ficar e ver mais. Viajar pelo globo a trabalho foi fantástico, um grande privilégio, mas era como receber doses homeopáticas do que há lá fora, era como ver o mundo através de uma janelinha. E eu queria ir além.

Ser jornalista e amante da fotografia me fez colecionar grandes histórias, mas faltava algo que a profissão não conseguia me dar mais. Apesar de voar para tantos lugares diferentes, eu sentia as minhas asas amarradas e o que eu queria mesmo era ser livre, do meu jeito. Já não me contentava em acumular memórias, repetidos roteiros e um currículo mais gordo – eu precisava viver algo novo. Um passo que exigiu coragem.

Foram seis anos girando o planeta cobrindo a Seleção Brasileira de Futebol, mas foi em uma viagem simples no interior de Santa Catarina que decidi pegar outro caminho: abandonar o conforto e a estabilidade de um super emprego para viver um tempo na estrada, livre para escolher meus destinos da forma que eu mais amo. Nascia então um sonho – não daqueles que aprendemos a seguir -, mas um genuinamente meu: viajar o mundo em cima de uma bicicleta.

Viagem teste

acampamento1

Rio dos Cedros – SC | 2015

O Circuito do Vale Europeu foi o grande teste. Eu já pedalava entre 80 e 90 km, mas queria ver como seria a experiência em dias consecutivos com a bicicleta carregada de peso. Na bagagem, além do essencial, trazia comigo o livro Homem Livre, do Danilo Perrotti – um inspirador mineiro que deu uma volta ao mundo de bicicleta em pouco mais de 3 anos. A minha viagem no Sul durou sete dias e foi uma das coisas mais incríveis que fiz na vida. Foi fascinante! Não esperava a dificuldade que tive, mas me saí muito bem. Cada sorriso que eu recebia me enchia de energia, sem falar nos banhos de rio e cachoeira que me revigoravam. Acampei em lugares inusitados e fui mais feliz assim do que dormindo em camas de hotéis consagrados. Definitivamente esta foi uma cicloviagem especial, mas acho que viajar de bicicleta é sempre assim: conhecer pessoas incríveis, sorrir e ter sempre um brilho nos olhos, seja em uma mega expedição ou num simples trajeto desconhecido aos finais de semana. Terminei de ler o livro do Danilo em Blumenau, um dia depois de completar o circuito. Estava emocionado em lembrar tudo o que eu tinha passado nos dias anteriores e atestei, através da história do Homem Livre e de todas as experiências que eu já tinha vivido, que era possível sim viajar o mundo em cima de uma bicicleta. É possível sim realizar o que a gente quiser! Foi ali que eu disse para mim mesmo que pedalaria atrás deste sonho. E pela forma que fui abraçado em Blumenau, escolhi este ser o porto de partida desta grande aventura.

A transição

Yoga no Ibirapuera | 2016

Yoga no Ibirapuera | 2016

Decidi então, em dezembro de 2015, que mudaria radicalmente de vida e isso englobava pedir demissão de uma posição conquistada dentro de uma empresa onde fui muito feliz. Decretei que 2016 seria um ano de planejamento e preparação, principalmente emocional. E assim foi. Vendi o carro, prancha, móveis, eletrodomésticos e tudo que eu não precisava mais para viver. Mudei alguns hábitos, comecei a me alimentar melhor, a meditar e praticar yoga. Olhei para dentro. Me planejei, trabalhei duro, pedi as contas e claro, segui pedalando.

Comecei a me perder em rotas, em excesso de planos e amenidades. E não demorou para ver que planejar muito era tudo o que eu não queria. Perder o controle é necessário para poder viajar para dentro, para fora e através. Organização e alguns cuidados são essenciais, mas aquele clichê de se perder para se encontrar se faz valer nessas horas. Se perder faz parte de explorar e essa é a essência do que estou prestes a viver: uma expedição sem pressa, para desacelerar o tempo e ver o mundo em câmera lenta.

A liberdadeLivre, por aí.

Acredito que a felicidade vem através da liberdade, seja qual for o cenário. Quando não somos livres, deixamos de ser quem somos e de viver os nossos verdadeiros sonhos. Muitos de nós vivem planejando demais o futuro e na maioria das vezes esquecemos que o melhor da viagem é o caminho e não o destino. O que vale mesmo é o que vivemos para chegar onde queremos. Há um roteiro para a minha viagem, há um roteiro para as nossas vidas e eles podem mudar o tempo todo. O que importa é o que aprendemos e levamos conosco neste processo, desta estrada, porque quando chegamos “lá”, logo queremos ir para outro lugar. O ser humano está sempre buscando algo. A liberdade é um estado que devemos sempre perseguir, pois quando somos livres, somos naturalmente felizes.

Esta é uma viagem de encontro à diversidade cultural deste planeta, diluindo o traço das fronteiras. Chame de aventura ou de missão, ela valoriza o básico: o vento no rosto, o sorriso que faz as pessoas sorrirem de volta e a vida simples. O objetivo vai além de explorar territórios: é olhar nos olhos dos lugares com consciência e sentir os detalhes ao redor que só quem viaja de bicicleta entende. Conhecer pessoas, experimentar sabores e sentir a liberdade em essência. A consequência? Ressignificar, tomando um caminho sem atalhos.

Bem-vindos!